Seja enquanto pessoa investidora ou profissional do mercado financeiro, um conceito vai te acompanhar por toda a sua jornada: o de liquidez.
De forma bastante direta, podemos definir a liquidez como a facilidade com que determinado ativo pode ser transformado em dinheiro. É algo encontrado, por exemplo, em CDBs com a famosa liquidez diária, que indica que o título pode ser resgatado a qualquer momento.
Mas é claro que não é só isso. Embora seja um tema relativamente simples, ainda assim a liquidez tem os seus pormenores, se comporta de forma diferente a depender do título ou do ativo e, para ser completamente entendida, deve também ser estudada.
Topa seguir comigo nessa missão? Neste artigo, vou responder algumas perguntas-chave sobre o tema:
- Qual é o conceito de liquidez?
- Como funciona a liquidez dos investimentos?
- Quanto é uma liquidez boa?
- Como avaliar a liquidez de uma aplicação?
- Quais são os principais investimentos com boa liquidez?
- Como a liquidez pode afetar o rendimento de um investimento?
- Como gerenciar a liquidez de uma carteira de investimentos?
Vamos lá?
Qual é o conceito de liquidez?
A liquidez é a facilidade de transformar um investimento em dinheiro sem precisar esperar muito ou aceitar uma perda relevante no processo. Um ativo tem alta liquidez quando você consegue sair da posição rapidamente e por um preço próximo daquele praticado no mercado.
Parece simples, mas existem duas coisas diferentes escondidas nessa definição. A primeira é o tempo que leva para ter o dinheiro disponível. A segunda é o quanto o preço pode ser prejudicado se você precisar vender rapidamente. Um investimento pode ter resgate rápido, mas sofrer uma perda importante na saída. Também pode acontecer o contrário, com um ativo que demora para ser vendido, mas mantém seu valor.
Vamos tomar as ações de exemplo. Nesses ativos, a liquidez tende a aparecer bastante ligada à quantidade de compradores e vendedores presentes no mercado. Uma ação negociada milhões de vezes por dia costuma permitir uma venda de R$10 mil sem grande dificuldade.
Agora, se uma ação for pouco negociada, significa que, na hora de vender, você pode não encontrar potenciais compradores suficientes naquele momento, então acaba tendo que reduzir o preço para conseguir vendê-la.
Bastante atenção aqui: é por isso que liquidez não deve ser confundida com rentabilidade, segurança ou risco. Um investimento pode ser muito líquido e apresentar bastante volatilidade, como acontece com ações. Outro pode ser pouco líquido e ter uma estrutura de risco completamente diferente. No fim do dia, uma boa análise sobre um investimento considera um conjunto de informações, indicadores e dados.
Como funciona a liquidez dos investimentos?
A liquidez funciona de maneiras diferentes conforme o investimento: em alguns produtos, você pede o resgate à própria instituição. Em outros, precisa encontrar alguém disposto a comprar o ativo de você no mercado.
Nos investimentos com resgate, existem pelo menos três datas que merecem atenção:
- Dia em que você pede o dinheiro;
- Dia em que o valor da cota é calculado;
- Dia em que o dinheiro chega à sua conta.
Fundos de investimento são um bom exemplo de como essa dinâmica acontece, aliás, já que o regulamento pode estabelecer uma data para a conversão das cotas e outra para o pagamento do resgate.
Imagine um fundo que tenha resgate em D+30. Você pode solicitar o resgate hoje, mas não significa que receberá o dinheiro hoje. Dependendo das regras do produto, a cota usada para calcular quanto você vai receber também pode ser a de uma data futura.
Nos ativos negociados em bolsa, a lógica é outra. Você não solicita um resgate ao fundo ou à empresa, mas sim coloca uma ordem de venda e espera que outro participante do mercado compre suas cotas ou ações.
Nesses casos, quanto mais compradores e vendedores estiverem negociando uma ação, mais fácil tende a ser encontrar alguém do outro lado da sua ordem.
A isso, damos o nome de volume negociação: um dado que é bem importante de ser analisado, mas que ainda assim requer que você dê uma olhada no chamado spread, que é a diferença entre o maior preço que alguém oferece para comprar e o menor preço pelo qual alguém aceita vender. Quanto menor essa diferença, menor tende a ser o custo para entrar ou sair da posição.
E antes de prosseguirmos, saiba que existe ainda uma situação que merece atenção: o mercado pode ficar menos líquido justamente quando você mais precisa dele. Em períodos de estresse, muitos investidores podem querer vender ao mesmo tempo e poucos compradores podem aparecer.
Em cenários assim, mesmo um ativo que normalmente tem boa liquidez pode sofrer maior diferença entre os preços de compra e venda.
Quanto é uma liquidez boa?
Uma boa liquidez é aquela que atende ao prazo em que a pessoa investidora pode precisar do dinheiro. Ou seja, não existe um número que seja bom para todos os investidores, como "até dois dias é boa" ou "acima de 30 dias é ruim".
Na hora de avaliar, um bom termômetro é entender os objetivos de quem está investindo, já que eles se relacionam diretamente com os prazos com que essas pessoas devem idealmente trabalhar.
Para uma reserva de emergência, por exemplo, faz sentido priorizar investimentos que permitam acesso rápido aos recursos. Se alguém tem R$ 20 mil guardados para cobrir uma eventual perda de renda, não adianta escolher um investimento que oferece um retorno um pouco maior se o dinheiro ficar indisponível por meses.
Para um objetivo de longo prazo, a conta muda. Se o seu cliente está investindo hoje para uma aposentadoria daqui a 20 anos, talvez não faça sentido abrir mão de oportunidades de rentabilidade apenas para manter todo o patrimônio disponível para resgate imediato.
Ao lidar com a liquidez, você não deve esquecer de saber bem qual a diferença entre liquidez diária e dinheiro disponível instantaneamente. Afinal, uma aplicação até pode permitir o pedido de resgate em qualquer dia útil, mas ainda assim estabelecer um prazo para que o dinheiro seja efetivamente creditado.
Nos ativos de bolsa, a pergunta para sentir a liquidez de uma ação é outra: "Consigo vender uma quantidade relevante desse ativo sem derrubar muito o preço?". Uma ação com milhões de reais negociados diariamente tende a oferecer uma resposta melhor do que um papel com poucos negócios.
Como avaliar a liquidez de uma aplicação?
Para avaliar a liquidez de uma aplicação, não olhe apenas para a expressão "liquidez diária". O ideal é que se confira:
- Quando você pode sair;
- Quando o dinheiro estará disponível;
- Qual preço será utilizado;
- Se existe alguma condição ou penalidade para o resgate.
Em produtos de renda fixa, procure informações como vencimento, carência, liquidez e prazo de resgate. Um CDB com vencimento de três anos pode ter liquidez diária, enquanto outro CDB do mesmo banco pode exigir que você permaneça investido até o vencimento, mesmo que estejamos aqui falando de um mesmo tipo de aplicação.
Nos fundos, leia especificamente as regras de cotização e pagamento do resgate. Nesse caso, é preciso levar em conta a data do pedido, a data de conversão da cota e a data em que o dinheiro será efetivamente disponibilizado. Você não precisa se preocupar, nem seus futuros clientes: essas informações aparecem no regulamento e na lâmina do fundo.
Agora, passando para os ativos negociados em bolsa, observe principalmente:
- Volume financeiro negociado: quanto dinheiro costuma movimentar por dia;
- Número de negócios: quantas operações acontecem com aquele ativo;
- Spread: distância entre a melhor oferta de compra e a melhor oferta de venda;
- Profundidade do mercado: quantidade de ofertas disponíveis em diferentes preços;
- Histórico de negociação: se o ativo mantém liquidez também em momentos de maior estresse.
Por último, mas não menos importante, não se esqueça de que o spread merece atenção especial. Imagine que uma ação esteja com uma oferta de compra a R$ 20,00 e uma oferta de venda a R$ 20,02. A diferença é pequena, não é? Agora imagine um ativo com compra a R$ 20,00 e venda a R$ 20,80. Se você quiser sair imediatamente, talvez precise aceitar uma condição muito pior.
Quais são os principais investimentos com boa liquidez?
Entre os investimentos conhecidos por oferecerem boa liquidez estão o Tesouro Direto, ações bastante negociadas, alguns fundos de investimento e CDBs com liquidez diária. Mas não dá para classificar uma categoria inteira como líquida ou ilíquida, já que as condições mudam de produto para produto.
Abaixo, te explico melhor o que acontece com cada um dos investimentos mencionados.
Tesouro Direto
O Tesouro Direto permite à população investir em títulos públicos emitidos pelo Governo Federal. Existem diferentes títulos, como Tesouro Selic, Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+, cada um com características próprias de remuneração e prazo.
Os títulos até podem ser vendidos antes do vencimento, mas existe um detalhe importante: vender antes da hora significa sair pelo preço de mercado daquele momento. O Tesouro Nacional recompra os títulos pelo valor de mercado (o que está valendo naquele momento), então o resultado de uma pessoa investidora pode ser diferente (para cima ou para baixo) daquele que seria obtido caso o título permanecesse até o vencimento.
Isso faz bastante diferença nos títulos prefixados e indexados à inflação. Se as taxas de mercado mudarem depois da compra, o preço desses títulos também pode mudar. É por isso que, em geral, eles podem ter boa possibilidade de saída, mas isso não significa que o investidor conseguirá sair pelo mesmo valor que imaginava.
Temos ainda o Tesouro Selic, que costuma ser utilizado para objetivos de curto prazo porque sofre menos com oscilações de preço do que títulos de prazo mais longo. Ainda assim, "liquidez" e "ausência de risco de mercado" são coisas diferentes.
Ações
Ações são parcelas do capital de empresas negociadas na bolsa. Ao comprar uma ação, você passa a ter uma pequena participação naquela companhia.
Aqui, a liquidez depende muito do papel escolhido. Empresas grandes e bastante negociadas costumam ter um fluxo maior de compradores e vendedores, enquanto ações com baixo volume podem apresentar spreads maiores e menos ofertas disponíveis.
Vamos supor que você tenha R$ 5 mil em uma ação que movimenta centenas de milhões de reais por dia. É provável que uma venda desse tamanho tenha pouco impacto no preço. Agora imagine uma ação que movimenta apenas R$ 100 mil por dia. Uma ordem de R$ 5 mil já representa uma parcela relevante daquele mercado e pode ser mais difícil de executar sem afetar o preço.
Vale fazer uma ressalva importante aqui, principalmente para quem atende investidores: uma ação com baixa liquidez não é necessariamente uma ação ruim.
Ela pode representar uma empresa sólida e ter bons fundamentos, mas exige mais cuidado porque a saída da posição pode ser mais difícil, principalmente quando o investidor precisa vender uma quantidade maior rapidamente. Aí acontece que essa baixa liquidez adiciona um risco operacional à decisão: o preço pode variar mais entre uma oferta e outra, o spread pode ser maior e uma ordem grande pode impactar a cotação.
Fica a dica: na hora de explicar esse tipo de ativo para um cliente, evite conclusões como "essa ação é ruim porque tem pouca liquidez". O mais correto é mostrar o que essa característica muda e verificar se ela combina com o prazo, o tamanho da posição e a necessidade de liquidez daquele investidor.
Uma ação pouco negociada pode fazer sentido em uma carteira de longo prazo, mas talvez não seja adequada para alguém que pretende movimentar o dinheiro com frequência.
Fundos de Investimento
Fundos de investimento reúnem o dinheiro de vários investidores e aplicam os recursos de acordo com uma política definida. Existem fundos de renda fixa, ações, multimercados, cambiais e diversas outras estratégias.
Para essas aplicações, a liquidez vai depender das regras do fundo: alguns permitem resgates no mesmo dia, mas outros podem exigir vários dias para converter as cotas e mais alguns para efetuar o pagamento.
Também vale lembrar que você, enquanto profissional, precisa lembrar seus clientes de que o prazo informado no fundo pode ter duas etapas. Primeiro vem a cotização, que define o valor da cota usado no resgate. Depois vem o pagamento, e aí sim é quando o dinheiro chega efetivamente na conta da pessoa investidora.
Todas essas informações podem ser encontradas nos documentos do fundo em questão e, assim como nas ações, um fundo menos líquido não é necessariamente ruim: isso pode significar somente que ele não deve ser considerado se a ideia for investir para ter um dinheiro de emergência, por exemplo.
CDBs
CDBs são títulos emitidos por bancos para captar recursos. É basicamente como se a pessoa investidora estivesse “emprestando” dinheiro à instituição e recebendo uma remuneração definida pelas condições do título.
CDBs são famosos porque muitos têm liquidez diária, que permitem o resgate antes do vencimento conforme as regras do produto. Mas não são todos que têm essa facilidade. Neste segundo caso, normalmente é preciso esperar o vencimento ou verificar se existe alguma possibilidade específica de saída antecipada.
Há ainda CDBs que têm um prazo de carência definido, que é um período no qual nenhuma movimentação deve ser feita.
É justamente aqui, nessa amplitude de variedade, que aparece uma escolha bastante comum: um CDB pode pagar uma taxa maior porque exige que o dinheiro fique aplicado por mais tempo. Outro pode pagar um pouco menos, mas permitir resgate diário.
Para uma pessoa que pode precisar do dinheiro a qualquer momento, a segunda alternativa pode valer mais do que alguns pontos adicionais de rentabilidade. Afinal, não adianta receber uma taxa maior se você precisa do dinheiro antes do vencimento e não consegue acessá-lo nas condições que gostaria.
Como a liquidez pode afetar o rendimento de um investimento?
A liquidez pode afetar a rentabilidade de duas formas: a primeira aparece nas condições oferecidas pelo próprio investimento e a segunda surge quando você precisa vender um ativo em um momento desfavorável.
Na renda fixa, é comum encontrar produtos com remunerações diferentes de acordo com o prazo e as condições de resgate. Imagine dois CDBs emitidos pelo mesmo banco: um paga 100% do CDI e permite resgate diário; outro paga 115% do CDI, mas exige permanência até o vencimento. A taxa maior pode funcionar como uma compensação pela menor flexibilidade.
Nos ativos negociados em bolsa, o efeito aparece de outra maneira. Se você precisa vender uma ação pouco líquida rapidamente, pode ter de aceitar uma oferta abaixo do preço que considerava justo. Nesse caso, a liquidez não só reduziu sua flexibilidade, como também afetou diretamente o resultado financeiro da operação.
Existe ainda uma relação importante entre liquidez e risco. Em momentos de estresse, a diferença entre os preços de compra e venda pode aumentar, e a quantidade de ofertas disponíveis pode diminuir. Quem precisa vender justamente nesse momento pode enfrentar um custo maior para sair.
É por isso que comparar investimentos apenas pela rentabilidade anunciada pode levar a uma conclusão bem incompleta. Quando você analisa um produto para um cliente, por exemplo, precisa entender também quando aquele dinheiro poderá ser necessário e quais condições existem para resgatá-lo, já que uma taxa maior pode vir justamente como compensação por uma liquidez menor.
Para entender melhor, imagine dois CDBs emitidos pelo mesmo banco. O primeiro paga 100% do CDI e permite resgate diário. O segundo paga 110% do CDI, mas exige que o dinheiro permaneça aplicado por dois anos. Olhando apenas para a rentabilidade, o segundo parece claramente melhor.
Só que, se o cliente pretende usar aquele dinheiro daqui a seis meses para dar entrada em um imóvel, pagar uma pós-graduação ou simplesmente manter uma reserva disponível, os 10 pontos extras de CDI deixam de ser o fator mais importante. Nesse caso, o problema não está no CDB de 110% do CDI, mas em colocá-lo em uma carteira que exige acesso rápido ao dinheiro.
Como gerenciar a liquidez de uma carteira de investimentos?
O melhor jeito de gerenciar a liquidez é organizar a carteira de acordo com quando cada dinheiro poderá ser necessário. Em outras palavras, é a prática de perguntar ao cliente quando ele pretende acessar ao dinheiro, em vez de colocar todo o peso da avaliação de uma aplicação na sua rentabilidade.
Uma estrutura simples pode separar a carteira em três grupos:
|
Necessidade |
Característica desejada |
Exemplos |
|
Emergências |
Acesso rápido e baixa oscilação |
Tesouro Selic, CDB com liquidez diária |
|
Objetivos de curto e médio prazo |
Liquidez compatível com a data do objetivo |
CDBs, fundos de renda fixa, títulos públicos |
|
Longo prazo |
Pode aceitar menor liquidez e oscilações |
Ações, ETFs, fundos e títulos de prazo mais longo |
Essa divisão não é uma regra pronta para toda pessoa investidora, ok? O ponto aqui é simplesmente evitar que um dinheiro tenha de cumprir funções incompatíveis. A reserva de emergência não deveria depender da venda de uma ação em um dia ruim da bolsa, por exemplo.
Também vale observar a liquidez da carteira como um todo, e não apenas de cada investimento individualmente. Você pode ter dez ativos com boa liquidez e ainda assim manter uma parcela grande demais do patrimônio em investimentos que demoram para virar dinheiro.
Falando nisso, vale fazer um teste simples: seu cliente pode precisar de R$ 10 mil amanhã. De onde esse dinheiro sairia? Se a resposta for "teria que vender as ações", "precisaria resgatar um fundo com D+30" ou "teria que quebrar um investimento antes do vencimento", talvez essa carteira imaginária tenha menos liquidez do que parece.
E não esqueça que a necessidade de liquidez muda com a vida. Uma pessoa que acabou de montar uma reserva financeira pode precisar de bastante dinheiro disponível. Depois de formar essa reserva, pode fazer sentido direcionar uma parcela maior para investimentos de longo prazo.
A liquidez, portanto, não é uma característica que se escolhe uma vez e se esquece. Ela precisa acompanhar os objetivos, o prazo e a realidade financeira da pessoa investidora.
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