A greve dos caminhoneiros que tem sido o principal assunto em todas as rodas de conversas teve início no dia 18/05/2018. Neste dia a ABCAM (Associação Brasileira de Caminhoneiros) deu um ultimato ao governo com promessa de paralisação total da classe.

“Se hoje não tiver uma resposta até as 18h, a gente já vai começar a se preparar para parar a partir da segunda-feira. Tem hora e dia para começar, mas não para acabar” – José da Fonseca Lopes, presidente da ABCAM.

A história se repete

Movimento semelhante, mas de forma muito menos intensa ocorreu também nos anos de 1999, 2000, 2012 e 2015. Na greve de 2015 não havia uma pauta unificada de reivindicações. Entretanto as principais exigências da greve dos caminhoneiros eram:

  • Redução do Preço do Diesel: O preço do Diesel foi o principal estopim para a greve dos caminhoneiros. No início de 2015 houve uma elevação dos tributos de PIS, COFINS e da CIDE com a intenção de elevar a arrecadação do governo federal em aproximadamente 20 Bilhões de reais. Esta elevação de tributos afetou diretamente o preço do combustível para os caminhoneiros;
  • Redução do Preço de Pedágios: A segunda reinvindicação da paralisação de 2015 era a redução do preço de pedágios. Fator que também afeta diretamente o custo do frete que nos leva há…
  • Elevação do Preço do Frete: Além da elevação do preço do diesel, elevado custo de pedágios e crescente custo da manutenção de veículos outro fator que motivou a greve dos caminhoneiros foi a dificuldade (principalmente dos caminhoneiros autônomos) em repassar a elevação do custo de combustível no preço dos fretes.

Como é de se imaginar a greve dos caminhoneiros em 2015 e anos passados ocasionou atrasos na entrega de matéria prima, alimentos e retenção de produtos nos portos. No ano de 2015 para atender as solicitações a dos grevistas a Petrobrás se comprometeu a não reajustar o preço dos combustíveis por seis meses com o compromisso de encerramento da grave no dia 25 de fevereiro daquele ano.

Quais as exigências dos caminhoneiros em 2018?

Coincidência ou não, as demandas da greve dos caminheiros 2018 têm praticamente as mesmas pautas. A principal delas obviamente é a redução do preço do óleo diesel que sofreu um acréscimo de 6,33% (fonte ANP) nas refinarias entre o dia 12/05/2018 e 19/05/2018. Este aumento consecutivo de preços vem inviabilizando o transporte rodoviário de cargas.

Além disso, há outras reinvindicações como a redução do PIS (Programa de Intervenção Social), COFINS (Contribuição para o Orçamento da Seguridade Social) e CIDE (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico) para viabilizar a redução do preço do óleo diesel, a não cobrança de pedágio para eixos suspensos e aprovação de um projeto de lei estabelecendo um preço mínimo (por quilômetro rodado) para o frete.

Por que o preço dos combustíveis subiu tanto?

Até o ano de 2015 a Petrobrás utilizava uma forma defasada de repasse das variações internacionais do preço do petróleo ao consumidor. Este era um mecanismo utilizado pelo governo federal como forma de controle da inflação uma vez que o preço dos combustíveis afeta fortemente este índice e o IPCA estava acima da meta. O acumulado do IPCA (índice oficial de inflação calculado pelo IBGE) nos últimos 12 meses chegava a 9,55% frente a meta de 4,5%.

Esta defasagem na política de preços levou a estatal a derrocada com um endividamento de 314 bilhões de reais e um prejuízo acumulado de mais 70 bilhões.

Somando-se a estes prejuízos temos ainda diversos escândalos de desvio de recursos públicos envolvendo a Petrobrás. Buscando uma reestabilização, a companhia adotou uma nova política de preços de acordo com a cotação internacional do petróleo em julho de 2017 que vem trazendo efeitos positivos para a recuperação da companhia.

O problema é que como você pode ver no gráfico abaixo com as informações da IndexMundi, na época em que foi estabelecida a nova política de preços o barril de petróleo estava cotado no mercado internacional a aproximadamente 45 dólares. Porém desde julho de 2017 a cotação do petróleo vem subindo persistentemente e o barril Brent já é negociado a 72 dólares.

Greve dos caminhoneiros
Greve dos caminhoneiros

A forte subida de preço do barril de petróleo somado a desvalorização do real frente ao dólar (de R$ 3,25 em julho de 2017 para R$ 3,68 em 21/05/2018) forçou a Petrobras passar o reajuste ao consumidor. Dessa forma a elevação de custos da estatal petrolífera foram repassados ao diesel e demais derivados de petróleo.

O que o governo pode fazer?

O governo federal pode influenciar o preço dos combustíveis de duas formas. A primeira é através da redução dos tributos incidentes nos combustíveis como o PIS, COFINS e a CIDE. A outra alternativa é uma nova alteração na política de preços da Petrobrás uma vez que a União é o majoritário da empresa (veja o quadro acionário da Petrobras) e tem este poder.

De forma paliativa para a suspensão da greve o governo federal já negociou com a estatal uma manutenção do preço do diesel por 60 dias onde o governo irá pagar a defasagem dos preços para não prejudicar ainda mais a companhia. Infelizmente a medida não teve o efeito esperado e o governo já apresenta novas medidas para finalizar a greve.

O ministro da fazenda Eduardo Guardia anunciou hoje (segunda feira 28/05/2018) que o governo reduzirá o preço do diesel em R$ 0,46 por litro nas refinarias zerando a tributação do PIS, COFINS e CIDE. O ministro da fazenda estima que essa redução da tributação deve causar um prejuízo de 9,5 bilhões de reais aos cofres públicos. De acordo com de responsabilidade fiscal a união precisará encontrar estes recursos de outra forma, ou seja, elevação da tributação em outras áreas.

Até o presente momento o ministro ainda não informou quais as áreas devem sofrer elevação na tributação, além da reoneração previdenciária da folha de pagamentos em setores que haviam recebido este benefício.

O que você não sabe sobre a greve dos caminhoneiros

Que nós brasileiros pagamos uma fatia gigantesca de nossa renda em tributos e ninguém aguenta mais tanta corrupção e roubalheira, não é novidade. A greve dos caminhoneiros é legítima e briga por melhores condições de trabalho para a categoria.

O ponto negativo é que esta perda de arrecadação será transferida a outros setores produtivos da economia como vestuário, alimentação e saúde. O mais grave é que esta paralisação completa das atividades por mais de uma semana tem causado prejuízos que devem atrasar e muito, a nossa economia.

A Folha de São Paulo fez um levantamento prévio do prejuízo em 27 de maio e chegou a um número prévio de 10 bilhões de reais no quinto dia de greve. Até o momento já chegamos ao oitavo dia e sem uma previsão clara de encerramento, o que deve elevar o cálculo para no mínimo 20 bilhões de reais.

Só na indústria de frangos e suínos a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) estimou o prejuízo em quase 2 bilhões de reais com a perda de 50 milhões de aves que estão morrendo diariamente pela falta de alimento. Esses números não consideram os pintinhos e novos ovos que também não são produzidos. Na indústria bovina o prejuízo deve chegar próximo a 700 milhões com os bois que deixam de ser abatidos, alimentados ou exportados.

Na indústria automotiva as perdas também são na casa dos bilhões. A ANFAVEA (associação do setor) estima que 1,3 bilhão de reais deixou de ser arrecadado em impostos, porque as linhas de produção estão paradas. A associação não divulgou uma estimativa de perda de faturamento das indústrias.

Isso nos leva a dois grandes problemas. O primeiro é o caos social. Até agora a situação ainda está sob “algum controle” uma vez que a falta de combustível afeta a população como um todo, mas não é situação de sobrevivência. Porém a falta de alimentos já começa a ser uma preocupação em algumas cidades, uma vez que a grande maioria dos supermercados já está com a totalidade das prateleiras vazias.

Os caminhoneiros têm total razão em seus protestos e suas reinvindicações são justas, mas não podemos brincar com a vida das pessoas. Existem regiões que estão sem energia elétrica (as usinas termelétricas dependem de óleo diesel). Se as manifestações se prolongarem por muito tempo pode haver a instauração do caos completo. Não precisamos ir muito longe, você já imaginou o desespero de um pai ou uma mãe com o filho chorando de fome sem alimentos no comércio?

Depois temos um problema gravíssimo de ordem econômica.

O grande perigo: A inflação

Como você pôde ver (nos supermercados) os setores da indústria mais afetados são o da alimentação. Nas grandes cidades as prateleiras de carnes e perecíveis estão completamente vazias. Milhões de animais estão morrendo de fome e são sacrificados para atender as regras da Organização Mundial da Saúde Animal e toneladas e mais toneladas de alimentos vegetais estão apodrecendo nos caminhões e deixando de ser plantados.

Estes alimentos desperdiçados estão causando prejuízos gigantescos as indústrias do setor que, para se manterem ativas precisarão obrigatoriamente distribuir este prejuízo com o consumidor. Este processo se dará através da elevação do preço dos alimentos gerando um efeito inflacionário.

Até o início da greve dos caminhoneiros a inflação estava sob controle, mas deve sofrer forte pressão nos próximos dias. Não veremos apenas uma elevação no preço dos alimentos, mas sim um desequilíbrio na oferta e demanda dos produtos de alimentação.

Durante estes 8 dias de greve estima-se que 64 milhões de aves adultas já foram sacrificadas e há falta de alimento para mais 1 bilhão de aves e 20 milhões de suínos. Neste período da greve dos caminhoneiros continuamos nos alimentando normalmente com o estoque prévio enquanto não estávamos mais produzindo alimentos.

Este efeito criou uma defasagem de 8 dias (até o momento) na produção que levará no mínimo 2 meses para ser normalizado devido ao ciclo de produção. A falta de alimentos deve causar uma pressão inflacionária nos próximos meses devido a falta de oferta de produtos alimentícios e elevação da tributação de outros setores.

Infelizmente, todos nós pagaremos o custo do país parado durante o período da greve dos caminhoneiros.

A parte triste é que o aumento da inflação é mais sentido pelas famílias mais pobres que tem um grande percentual do orçamento gasto com inflação deixando os pobres cada vez mais pobres com a perda do valor do dinheiro.